Em nossa sociedade, cada vez mais conectada, na qual informações, notícias, imagens e vídeos circulam em uma velocidade impressionante, saber utilizar os dispositivos tecnológicos já não é suficiente. É necessário compreender como os conteúdos são produzidos, distribuídos e consumidos, além de desenvolver habilidades para avaliar sua confiabilidade e seus impactos na sociedade.
É justamente nesse contexto que a Educação Digital e Midiática ganha protagonismo nas escolas brasileiras. Mais do que ensinar os estudantes a utilizar ferramentas digitais, essa abordagem busca formar cidadãos críticos, éticos, criativos e capazes de participar conscientemente dos ambientes digitais.
Mas, afinal, o que significa Educação Digital e Midiática? Como ela se relaciona com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC)? E, principalmente, como os professores podem trabalhar essas competências em sala de aula?
Vamos descomplicar este assunto e apresentar caminhos para integrar a Educação Digital e Midiática ao cotidiano escolar. Confira!
O que é Educação Digital e Midiática?
A Educação Digital e Midiática é uma abordagem educacional que reúne conhecimentos, habilidades e atitudes necessários para compreender, utilizar, analisar e produzir conteúdos e tecnologias digitais de maneira crítica, ética, segura e responsável.
Embora estejam relacionadas, a educação digital e a educação midiática possuem enfoques diferentes e complementares.
A educação digital envolve o desenvolvimento de competências para compreender e utilizar tecnologias, incluindo noções de segurança, privacidade, pensamento computacional e participação na cultura digital.
Já a educação midiática está relacionada à capacidade de acessar, interpretar, avaliar, produzir e compartilhar informações em diferentes meios de comunicação, reconhecendo interesses, linguagens e estratégias presentes nas mensagens.
Na prática, isso significa ensinar os estudantes não apenas a pesquisar na internet, mas também a identificar fontes confiáveis, reconhecer conteúdos manipulados, compreender a influência dos algoritmos e refletir sobre as consequências de suas interações digitais.
A Estratégia Brasileira de Educação Midiática, coordenada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, destaca a importância dessas competências para enfrentar a desinformação, fortalecer a participação cidadã e promover ambientes informacionais mais seguros.
O que a BNCC diz sobre Educação Digital e Midiática?
A Educação Digital e Midiática não é um tema isolado das políticas educacionais brasileiras. Sua integração ao currículo está relacionada à BNCC e a outras regulamentações nacionais.
A Competência Geral 5 da BNCC estabelece a importância de compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de maneira crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais, incluindo as escolares.
Além disso, a Lei nº 14.533/2023, que instituiu a Política Nacional de Educação Digital (PNDE), estabeleceu diretrizes para ampliar a inclusão digital e promover competências relacionadas ao pensamento computacional, à cultura digital e aos direitos digitais.
Um importante avanço ocorreu em 2025, com a publicação da Resolução CNE/CEB Nº 2/2025, que instituiu diretrizes operacionais nacionais para o uso de dispositivos digitais nos espaços escolares e para a integração curricular da Educação Digital e Midiática.
Segundo a resolução, as redes de ensino podem desenvolver esses conhecimentos transversalmente, entre diferentes disciplinas, ou por meio de um componente curricular específico, conforme suas decisões de organização curricular. Portanto, trabalhar Educação Digital e Midiática não significa necessariamente criar uma disciplina isolada, mas garantir que essas aprendizagens estejam presentes no percurso formativo dos estudantes.
Por que a Educação Digital e Midiática é importante na escola?
Já sabemos que cada vez mais crianças e adolescentes estão sendo expostos a diferentes plataformas, como redes sociais, jogos e conteúdos audiovisuais. Entretanto, a familiaridade com essas ferramentas não significa que saibam utilizá-las criticamente. Nesse sentido, a Educação Digital e Midiática contribui para desenvolver competências fundamentais, como:
- Pensamento crítico: avaliar informações, identificar interesses e questionar conteúdos antes de compartilhá-los.
- Cidadania digital: compreender direitos, deveres e responsabilidades nos ambientes virtuais.
- Segurança e privacidade: proteger dados pessoais e reconhecer situações de risco.
- Criatividade e comunicação: produzir conteúdos digitais com intencionalidade, autoria e responsabilidade.
- Consciência informacional: compreender como algoritmos e plataformas influenciam o acesso às informações.
Essas aprendizagens também ajudam os estudantes a compreenderem fenômenos contemporâneos, como a desinformação, o cyberbullying e os desafios éticos associados à inteligência artificial.
Como aplicar a Educação Digital e Midiática na escola? 5 estratégias práticas
Integrar a Educação Digital e Midiática ao planejamento pedagógico não depende exclusivamente de equipamentos sofisticados. Muitas atividades podem ser realizadas com materiais impressos, discussões coletivas e propostas interdisciplinares.
A seguir, confira cinco estratégias que podem ser adaptadas às diferentes etapas da Educação Básica.
1. Desenvolva atividades de checagem de informações
Uma das maneiras de trabalhar a educação midiática é ensinar os estudantes a investigar a veracidade de conteúdos. O professor pode solucionar notícias, manchetes ou publicações e propor uma atividade investigativa.
Durante a análise, os estudantes devem responder a perguntas como: quem produziu a informação? Quando ela foi publicada? Existem outras fontes que confirmam o conteúdo? A manchete corresponde ao que está escrito?
A proposta pode ser desenvolvida em Língua Portuguesa, História ou Ciências, estimulando a leitura crítica e a argumentação.
2. Explore o funcionamento dos algoritmos
Você já percebeu como as redes sociais apresentam conteúdos semelhantes àqueles com os quais interagimos anteriormente? Esse fenômeno pode ser utilizado para explicar, de maneira acessível, como funcionam os sistemas de recomendação.
Uma atividade interessante consiste em apresentar situações hipotéticas nas quais diferentes usuários recebem recomendações distintas, conforme seus interesses e interações.
Depois, promova uma discussão sobre como essa relação pode influenciar o acesso à informação e a formação de opiniões. O objetivo é mostrar que aquilo que aparece nas plataformas não representa necessariamente toda a diversidade de informações disponíveis.
3. Incentive a produção de conteúdos digitais
Os estudantes também precisam aprender a atuar como produtores responsáveis de informação. Para isso, proponha a criação de podcasts, vídeos educativos, jornais digitais ou campanhas de conscientização sobre temas estudados.
Durante o processo, trabalhe conceitos como autoria, direitos de imagem, direitos autorais e responsabilidade na divulgação de informações.
4. Promova debates sobre inteligência artificial
A inteligência artificial generativa está transformando a maneira como conteúdos são produzidos e acessados. Por isso, é importante que os estudantes compreendam suas possibilidades e limitações.
Uma atividade consiste em comparar um texto produzido por IA com materiais de fontes verificáveis, identificando possíveis erros, informações imprecisas e ausência de referências.
A discussão pode abordar questões como: toda resposta produzida por inteligência artificial é confiável? Como verificar uma informação? Quais cuidados devemos tomar ao compartilhar dados pessoais?
5. Trabalhe a cidadania e a segurança digital
A convivência nos ambientes virtuais também deve fazer parte do cotidiano escolar. Proponha a construção coletiva de um guia de boas práticas digitais, abordando respeito, privacidade, proteção de dados e prevenção ao cyberbullying.
Os estudantes podem criar orientações para a comunidade escolar, utilizando cartazes, histórias em quadrinhos ou campanhas educativas. Essa atividade favorece o desenvolvimento da empatia, da responsabilidade e da participação cidadã.
Aproveite e assista ao podcast Conteúdo Aberto com o tema Educação Midiática, com Januária Alves.