Os Anos Finais do Ensino Fundamental representam uma etapa de importantes transformações na trajetória escolar. Entre o 6º e o 9º ano, os estudantes vivenciam mudanças cognitivas, sociais, físicas e emocionais, ao mesmo tempo que precisam desenvolver conhecimentos cada vez mais complexos e fortalecer sua autonomia.
É nesse cenário que chega o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) 2028–2031, trazendo novas orientações para a elaboração e a avaliação dos livros didáticos destinados a essa etapa da Educação Básica.
O Ministério da Educação (MEC), por meio da Secretaria de Educação Básica (SEB) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), estabeleceu diretrizes que priorizam a recomposição das aprendizagens, a Educação Digital e Midiática, a valorização das adolescências e o fortalecimento do trabalho pedagógico.
Essas orientações estão reunidas no Anexo 01 – Referencial Pedagógico, do Edital de Convocação nº 01/2026 – MEC/FNDE, publicado em março de 2026.
Mas, afinal, o que muda no PNLD 2028–2031 e como essas orientações podem contribuir para a aprendizagem dos estudantes? Conheça os principais destaques do documento.
O que é o PNLD 2028–2031?
O PNLD é uma política pública responsável pela avaliação, aquisição e distribuição gratuita de livros e materiais didáticos para escolas públicas brasileiras.
O ciclo 2028–2031 é destinado aos Anos Finais do Ensino Fundamental e busca atender às necessidades educacionais de estudantes do 6º ao 9º ano.
Segundo o referencial pedagógico do FNDE, os materiais devem contribuir para consolidar habilidades de leitura, escrita, raciocínio lógico-matemático e pensamento científico, considerando as particularidades da adolescência.
O documento também estabelece que as obras estejam alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a três políticas educacionais estruturantes: o Programa Escola das Adolescências, o Compromisso Nacional Toda Matemática e o Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens.
Para isso, o programa está organizado em duas categorias:
- Categoria 1 – Obras Didáticas: coleções destinadas aos estudantes e professores, organizadas por componentes curriculares, com versões impressas e digitais.
- Categoria 2 – Obras de Apoio Teórico-Metodológico: materiais digitais voltados à formação continuada e ao desenvolvimento das práticas pedagógicas dos professores.
Essa organização evidencia uma preocupação que ultrapassa a oferta de livros: disponibilizar recursos capazes de apoiar o ensino e responder aos desafios da aprendizagem.
Fonte: Referencial Pedagógico do PNLD 2028–2031, seções 1, 2 e 5.
1. Educação Digital e Midiática ganha espaço nos livros didáticos
Uma das novidades de maior destaque é a presença de coleções específicas de Educação Digital e Midiática, destinadas aos quatro anos dessa etapa escolar.
O referencial estabelece que os materiais abordem temas como pensamento computacional, cultura digital, inteligência artificial, cidadania digital e uso ético das tecnologias.
A proposta não se limita a ensinar estudantes a utilizar equipamentos ou aplicativos. O objetivo é desenvolver uma compreensão crítica sobre a influência das tecnologias nas relações sociais, na comunicação e na construção do conhecimento.
O documento também orienta que as aprendizagens sejam desenvolvidas progressivamente, considerando as características de cada ano escolar.
Fonte: Referencial Pedagógico, seção 7.6 – Educação Digital e Midiática.
2. Recomposição das aprendizagens será prioridade
Outra diretriz central do PNLD 2028–2031 é o fortalecimento das estratégias de recomposição das aprendizagens.
A preocupação está relacionada às desigualdades educacionais e às dificuldades acumuladas ao longo da escolarização, especialmente em habilidades essenciais de leitura, escrita e Matemática.
O referencial determina que as coleções de Língua Portuguesa, Matemática e Ciências da Natureza contemplem habilidades da matriz curricular priorizada para recomposição, com sinalização específica nos materiais destinados aos professores.
Além disso, os livros devem apresentar atividades com diferentes graus de complexidade, possibilitando que estudantes com distintos níveis de aprendizagem avancem na construção dos conhecimentos.
A avaliação diagnóstica e o acompanhamento contínuo também ganham destaque, permitindo identificar dificuldades e orientar intervenções pedagógicas.
Para os educadores, isso significa contar com materiais que devem apoiar não apenas a apresentação dos conteúdos, mas também a retomada de conhecimentos ainda não consolidados.
O desafio será integrar essas propostas ao planejamento, considerando as necessidades concretas de cada turma.
Fonte: Referencial Pedagógico, seções 1 e 4.
3. Livros digitais terão podcasts, infográficos e mapas interativos
A ampliação dos recursos digitais constitui outro destaque do novo ciclo.
As coleções da Categoria 1 deverão apresentar versões em PDF interativo, correspondentes aos livros impressos, com acréscimos de objetos digitais.
O documento prevê os seguintes recursos por volume:
| Recursos digitais | Quantidade prevista |
| Infográficos clicáveis | 3 por volume |
| Podcasts | 3 por volume, com até 5 minutos, exceto Arte, Educação Física, Inglês e Espanhol |
| Mapas clicáveis | 4 por volume, exclusivamente em História e Geografia |
| Faixas de áudio | Quantidades específicas para Línguas Estrangeiras, Arte e Educação Física |
Esses recursos podem ampliar as possibilidades de exploração dos conteúdos, favorecendo diferentes linguagens e experiências de aprendizagem.
Em Geografia, por exemplo, mapas interativos podem contribuir para compreender fenômenos espaciais. Já os podcasts podem complementar o estudo de conceitos e estimular atividades de escuta e discussão.
O referencial também exige transcrições para materiais em áudio e orienta a produção de conteúdos com qualidade visual e sonora, respeitando as necessidades de acessibilidade.
Fonte: Referencial Pedagógico, seção 6 – Dos objetos digitais.
4. Professores terão materiais de apoio à formação continuada
Outra novidade está na Categoria 2, dedicada às obras de apoio teórico-metodológico.
Diferentemente das coleções destinadas aos estudantes, esses materiais serão disponibilizados em volume único digital, com foco na formação e na reflexão sobre as práticas docentes.
O documento estabelece sete eixos temáticos:
- Recomposição das Aprendizagens;
- Educação Matemática;
- Educação Socioemocional e Adolescência;
- Educação Ambiental, Justiça Climática e Protagonismo Juvenil;
- Educação Digital e Midiática;
- Inclusão Escolar;
- Educação para as Relações Étnico-Raciais.
Esses temas refletem desafios contemporâneos da Educação Básica e reconhecem a importância de oferecer subsídios para que os educadores aprofundem conhecimentos e desenvolvam estratégias de ensino.
O eixo de Educação Socioemocional e Adolescência, por exemplo, prevê discussões sobre transformações próprias dessa fase, desenvolvimento das funções executivas e autorregulação emocional.
Já o eixo de Educação Ambiental propõe práticas contextualizadas, articulando investigação, participação social e questões relacionadas às mudanças climáticas.
Fonte: Referencial Pedagógico, seção 8 – Obras de Apoio Teórico-Metodológico.
5. Inclusão, diversidade e protagonismo juvenil ganham destaque
O PNLD 2028–2031 também reforça a necessidade de materiais comprometidos com a diversidade cultural, a inclusão e a equidade.
As obras deverão contemplar diferentes realidades brasileiras, valorizar as culturas afro-brasileiras, indígenas, quilombolas e do campo e apresentar propostas adequadas à faixa etária dos estudantes.
O documento destaca ainda a importância de reconhecer adolescentes como sujeitos ativos, históricos e de direitos.
Nesse sentido, as coleções devem favorecer o pensamento crítico, a argumentação, a participação e a construção coletiva do conhecimento.
Também deverão oferecer orientações aos professores para personalizar atividades, diversificar estratégias de avaliação e promover a participação dos estudantes com deficiência.
A proposta é que os materiais contribuam para experiências de aprendizagem mais contextualizadas, respeitando diferentes ritmos, repertórios e necessidades.
Fonte: Referencial Pedagógico, seções 3 e 4.
Como o PNLD 2028–2031 pode transformar o trabalho pedagógico?
As diretrizes do novo ciclo apontam para uma concepção de material didático que vai além da organização dos conteúdos curriculares.
Os livros devem oferecer orientações para o planejamento, sugestões de atividades interdisciplinares, instrumentos de avaliação e estratégias de acompanhamento das aprendizagens.
Entretanto, é importante destacar que o referencial pedagógico apresenta critérios para elaboração e avaliação das obras, e não resultados já alcançados com sua utilização.
A efetividade desses recursos dependerá de fatores como a qualidade das coleções aprovadas, a formação docente e as condições de implementação nas escolas.
Mais do que incorporar novos conteúdos e tecnologias, o PNLD 2028–2031 propõe fortalecer a relação entre currículo, aprendizagem e realidade dos adolescentes.
Afinal, um livro didático de qualidade não substitui o professor: amplia suas possibilidades de ensinar, acompanhar e transformar a aprendizagem.