Resumo da postagem

Confira dicas de atividades para EJA que valorizam as experiências dos estudantes, conectam os conteúdos ao cotidiano e tornam a aprendizagem na Educação de Jovens e Adultos mais significativa.

Educação de Jovens e Adultos (EJA) ocupa um lugar essencial na garantia do direito à educação. Mais do que possibilitar a retomada dos estudos, essa modalidade abre caminhos para que jovens, adultos e idosos ampliem conhecimentos, desenvolvam autonomia e encontrem novas possibilidades de participação na vida profissional, cultural e social. 

Esse olhar é fundamental porque quem chega à EJA não chega sem conhecimentos. São estudantes que carregam histórias, experiências de trabalho, relações familiares, práticas culturais, conhecimentos sobre a comunidade e diferentes formas de interpretar e resolver problemas cotidianos. 

Para o professor, esse repertório representa uma oportunidade pedagógica valiosa. 

Em vez de organizar o ensino a partir da ideia de que é necessário “recuperar o tempo perdido”, é possível partir do que os estudantes já conhecem para estabelecer pontes com novos conhecimentos. Isso não significa limitar as aulas às experiências cotidianas, mas utilizá-las como ponto de partida para ampliar repertórios, apresentar conceitos e desenvolver novas formas de compreender o mundo. 

Por isso, pensar em atividades para EJA exige mais do que adaptar exercícios utilizados em outras etapas da Educação Básica. É preciso considerar quem são esses estudantes, quais conhecimentos já possuem, quais desafios enfrentam e de que maneira aquilo que aprendem pode dialogar com suas vidas. 

O que considerar ao planejar atividades para EJA? 

Uma mesma turma de Educação de Jovens e Adultos pode reunir pessoas com idades, histórias e níveis de escolarização bastante diferentes. Alguns estudantes podem ter interrompido os estudos recentemente; outros retornam à escola depois de décadas. Há quem tenha facilidade com cálculos realizados mentalmente no trabalho, mas encontre dificuldades diante da linguagem matemática formal. Outros dominam práticas digitais, mesmo apresentando desafios relacionados à leitura e à escrita. 

Essa diversidade não deve ser entendida apenas como dificuldade para o planejamento. Ela também pode se transformar em matéria-prima para a aprendizagem. 

Um dos primeiros movimentos do professor, portanto, pode ser conhecer a turma: suas experiências profissionais, interesses, conhecimentos, expectativas e razões para voltar a estudar. 

Essa escuta ajuda a construir situações de aprendizagem mais significativas e, principalmente, evita a infantilização das práticas pedagógicas. Um estudante adulto pode estar em processo de alfabetização, por exemplo, mas continua sendo um adulto. Os materiais, exemplos, imagens, textos e situações propostas precisam respeitar essa condição. 

Também é importante considerar que a trajetória na EJA pode sofrer interferências de fatores externos à escola. Trabalho, transporte, cuidado com filhos e familiares e mudanças na rotina podem afetar a frequência. Por isso, retomadas, sínteses e diferentes oportunidades de aprendizagem podem fazer parte do próprio planejamento, ajudando o estudante a reconstruir conexões mesmo quando não consegue acompanhar todas as aulas. 

Como tornar as atividades para EJA mais significativas? 

Uma boa pergunta para orientar o planejamento é: 

“Que relação esse conhecimento pode estabelecer com aquilo que meus estudantes já sabem e com aquilo que ainda precisam descobrir?” 

A resposta pode levar a propostas que conectem os componentes curriculares a problemas, textos, situações e questões sociais reais. 

Uma conta de energia elétrica, por exemplo, pode permitir trabalhar porcentagem, consumo, leitura de gráficos, sustentabilidade e planejamento financeiro. Uma notícia pode mobilizar leitura, interpretação, argumentação, Geografia, História e pensamento crítico. 

O cotidiano, portanto, não precisa ser o destino da aprendizagem. Ele pode ser a porta de entrada. 

A seguir, confira algumas atividades para EJA que podem ser adaptadas a diferentes componentes curriculares e etapas de aprendizagem. 

1. Mapa das histórias da turma 

Uma possibilidade para conhecer os estudantes e trabalhar oralidade, leitura e escrita é criar um mapa das trajetórias da turma. 

Cada estudante pode registrar lugares importantes de sua história: onde nasceu, onde viveu, onde trabalhou, cidades que conheceu ou lugares que gostaria de visitar. 

A partir dessas informações, o professor pode explorar mapas, distâncias, deslocamentos populacionais, características regionais e transformações sociais. 

A atividade também pode resultar em pequenos relatos autobiográficos. 

O objetivo não é expor experiências pessoais que o estudante não queira compartilhar, mas mostrar que diferentes trajetórias podem produzir conhecimento e ajudar a turma a compreender questões maiores da sociedade. 

2. Matemática do orçamento doméstico 

A Matemática está presente em inúmeras decisões cotidianas. Por isso, situações financeiras podem gerar excelentes atividades para EJA

Apresente um orçamento fictício contendo despesas como: 

  • aluguel; 
  • alimentação; 
  • transporte; 
  • energia elétrica; 
  • água; 
  • internet; 
  • medicamentos; 
  • lazer. 

A turma pode calcular despesas totais, identificar percentuais do orçamento, comparar cenários e discutir alternativas diante de uma situação inesperada. 

O professor também pode apresentar promoções, descontos e parcelamentos para trabalhar porcentagem, juros e operações matemáticas. 

O importante é avançar da resolução prática para a sistematização do conhecimento matemático, ajudando o estudante a compreender os conceitos envolvidos nas operações que muitas vezes já realiza intuitivamente. 

3. Leitura crítica de notícias 

Escolha uma notícia relacionada a um assunto relevante para a turma e apresente diferentes perguntas: 

O que aconteceu? Quem produziu essa informação? Quais fontes foram consultadas? Há dados que sustentam as afirmações? O título corresponde ao conteúdo? 

Depois, compare como diferentes veículos apresentam um mesmo acontecimento. 

Além da compreensão textual, a proposta permite trabalhar argumentação, fontes de informação, desinformação e leitura crítica — competências especialmente importantes em um contexto no qual grande parte das informações circula pelas redes sociais e aplicativos de mensagens. 

4. A conta de luz também pode virar conteúdo 

Peça aos estudantes que analisem uma conta de energia fictícia ou um modelo preparado pelo professor. 

Comece identificando informações básicas: período de consumo, quantidade utilizada, valor total e data de vencimento. 

Depois, amplie a investigação. 

A turma pode construir gráficos comparando o consumo de diferentes meses, calcular aumentos ou reduções percentuais e discutir hábitos capazes de diminuir o consumo de energia. 

A atividade permite aproximar Matemática e Ciências e ainda desenvolver habilidades relacionadas à interpretação de documentos presentes no cotidiano. 

5. Currículo profissional e projeto de vida 

Produzir ou atualizar um currículo pode ser uma atividade especialmente significativa na Educação de Jovens e Adultos

O professor pode começar discutindo o que é um currículo, quais informações devem aparecer no documento e como diferentes experiências podem demonstrar conhecimentos e competências. 

Depois, cada estudante pode elaborar seu próprio currículo ou trabalhar com um personagem fictício. 

A atividade permite explorar produção textual, revisão, organização das informações, linguagem formal e ferramentas digitais. 

Também abre espaço para uma reflexão importante: o que aprendemos fora da escola? 

Experiências profissionais, trabalhos informais, cuidado de outras pessoas, participação comunitária e diferentes responsabilidades podem envolver conhecimentos que nem sempre são reconhecidos pelos próprios estudantes. 

6. Memórias que viram texto 

Convide a turma a escolher uma lembrança relacionada à infância, ao trabalho, à família, à comunidade ou a algum acontecimento histórico. 

O relato pode começar oralmente e depois ser transformado em texto. 

Dependendo do nível da turma, o professor pode trabalhar estrutura narrativa, sequência temporal, pontuação, escolha lexical e revisão. 

Os textos podem compor um livro, mural ou arquivo digital de memórias da turma. 

Além de desenvolver competências linguísticas, a proposta ajuda a mostrar que as histórias individuais também dialogam com acontecimentos sociais, culturais e históricos. 

7. Pesquisa de preços e consumo consciente 

Apresente encartes, anúncios ou tabelas fictícias com preços de produtos encontrados em diferentes estabelecimentos. 

Proponha um desafio: a turma possui determinado orçamento e precisa organizar uma compra. 

Qual estabelecimento apresenta o menor preço? Uma embalagem maior é sempre mais econômica? Quanto representa um desconto de 15%? Comprar parcelado altera o valor final? 

Além dos conhecimentos matemáticos, a atividade pode abrir discussões sobre consumo, publicidade, planejamento e escolhas financeiras. 

8. O bairro como objeto de investigação 

A comunidade onde a escola está inserida pode se transformar em um grande campo de pesquisa. 

Peça aos estudantes que identifiquem: 

  • serviços públicos disponíveis; 
  • espaços de lazer; 
  • comércio; 
  • meios de transporte; 
  • equipamentos culturais; 
  • problemas ambientais; 
  • mudanças ocorridas nos últimos anos. 

Depois, organize os dados coletados. 

A turma pode produzir mapas, gráficos, fotografias, relatos, entrevistas ou textos propondo melhorias para a região. 

Dessa maneira, diferentes componentes curriculares podem dialogar em torno de um problema comum. 

Leia aqui: Educação Climática: 10 atividades para discutir as mudanças do clima 

9. Tecnologia para situações reais 

A inclusão digital pode ser trabalhada a partir de tarefas que façam sentido para os estudantes. 

Em vez de ensinar apenas funções isoladas de um computador ou celular, proponha desafios: escrever e enviar um e-mail, pesquisar uma informação, criar um documento, utilizar um mapa digital ou verificar se determinada informação encontrada na internet é confiável. 

Também é possível trabalhar segurança digital, golpes virtuais, proteção de dados e criação de senhas seguras. 

O objetivo é fazer da tecnologia uma ferramenta de autonomia e participação social. 

Leia aquiComo ensinar pensamento crítico na era dos vídeos curtos? 

10. Problemas do cotidiano que viram projetos 

Outra possibilidade é perguntar aos próprios estudantes: 

“Que problema da nossa comunidade poderíamos investigar?” 

Transporte público, descarte de resíduos, iluminação, acessibilidade, emprego, saneamento ou preservação de espaços públicos podem se transformar em temas de pesquisa. 

Depois de escolher uma questão, os estudantes podem levantar informações, entrevistar moradores, pesquisar dados, elaborar gráficos e produzir propostas. 

Nesse tipo de atividade, Língua Portuguesa, Matemática, Ciências Humanas e Ciências da Natureza podem aparecer de maneira integrada. 

E como avaliar os estudantes da EJA? 

A avaliação na Educação de Jovens e Adultos também pode acompanhar essa diversidade de experiências e formas de aprender. 

Provas e exercícios continuam sendo possibilidades, mas não precisam constituir os únicos instrumentos avaliativos. 

Produções escritas, apresentações orais, resolução de problemas, projetos, portfólios, debates e registros de aprendizagem podem ajudar o professor a observar diferentes dimensões do desenvolvimento do estudante. 

Há quem consiga demonstrar compreensão com facilidade durante uma conversa, mas apresente dificuldades para organizar as ideias por escrito. Outro estudante pode preferir escrever a falar diante da turma. 

Diversificar os instrumentos não significa diminuir as expectativas de aprendizagem. Significa ampliar as possibilidades para que o estudante demonstre aquilo que aprendeu e, ao mesmo tempo, permitir que o professor identifique o que ainda precisa ser desenvolvido. 

EJA: partir da experiência para ampliar horizontes 

Valorizar os conhecimentos dos estudantes não significa restringir a EJA ao cotidiano. A própria função da escola envolve ampliar repertórios e possibilitar o acesso a conhecimentos científicos, históricos, culturais, artísticos e tecnológicos que talvez não estivessem disponíveis anteriormente. 

O desafio está justamente em construir essa ponte. 

O conhecimento sobre construção civil pode abrir caminho para conceitos de geometria. A experiência com vendas pode aproximar o estudante de porcentagens e estatística. Uma história sobre migração pode introduzir discussões de Geografia e História. Uma mensagem recebida pelo celular pode iniciar uma aula sobre gêneros textuais ou desinformação. 

Assim, as atividades para EJA deixam de ser exercícios desconectados para se transformarem em oportunidades de relacionar experiência, conhecimento escolar e descoberta. 

Na Educação de Jovens e Adultos, ninguém chega à escola de mãos vazias. Cada estudante traz consigo conhecimentos construídos durante anos de vida. O papel da escola é reconhecer esse repertório, dialogar com ele e, principalmente, criar condições para que novos conhecimentos sejam construídos. 

Porque retornar à escola não deveria significar voltar ao ponto de partida. Deveria significar descobrir quantos caminhos ainda podem ser percorridos. 

Essa versão também incorpora a ideia do texto-base de que o planejamento precisa reconhecer os saberes prévios sem manter o estudante restrito ao que já conhece, ampliando progressivamente seu repertório. E aprofunda a necessidade de considerar frequência, retomadas e diferentes formas de avaliação, aspectos destacados no material original.

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