Quando pensamos em violência escolar, muita gente ainda imagina apenas cenas “explosivas”: agressões físicas, armas, brigas filmadas e postadas nas redes.
Esses episódios existem, e cresceram de forma preocupante, mas eles são só a ponta de um iceberg de violências silenciosas que atravessam o cotidiano escolar muito antes de qualquer tragédia aparecer no noticiário.
Para quem está na gestão e na sala de aula da escola pública, encarar esse tema com honestidade é urgente. Porque os dados mostram que a escola brasileira está adoecida, e nossas respostas ainda chegam tarde demais.
1. O que os dados já gritam, mas a escola ainda não escutou
De acordo com o Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), entre 2013 e 2023, o número de vítimas de violência interpessoal nas escolas brasileiras (estudantes, professores e outros membros da comunidade) saltou de 3,7 mil para 13,1 mil, um aumento de 254%, segundo levantamento com base em registros do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
O Disque 100 também registrou, entre janeiro e setembro de 2023, 9.530 denúncias de violência nas escolas, envolvendo mais de 50 mil violações de direitos – um aumento de cerca de 50% em relação a 2022.
Já a Pesquisa do DataSenado indicou que, em um período de 12 meses, 6,7 milhões de estudantes sofreram algum tipo de violência na escola (cerca de 11% dos alunos). Quando se pergunta se a pessoa já sofreu violência escolar em algum momento da vida, esse índice sobe para 22%; no caso específico de bullying, chega a 33%.
No plano internacional, a OCDE (2018) apontou que o clima escolar brasileiro está entre os piores do mundo: 29% dos estudantes relatam sofrer bullying (a média da OCDE é 23%), e 41% dizem enfrentar indisciplina frequente em sala de aula.
Esses dados revelam algo importante: a violência na escola não é exceção, não é “caso isolado”. Ela é um fenômeno estrutural, atravessa o clima escolar, corrói relações e impacta diretamente o aprendizado, o bem-estar e a permanência dos estudantes.
O problema é que, na prática, muitas escolas ainda tratam esse tema como se fosse:
- um desvio individual (“aluno problema”);
- um problema disciplinar (“falta de limites”);
- ou um assunto de polícia (“chama a viatura e resolve”).
Essa visão reduzida impede a compreensão do fenômeno como algo relacional, estrutural e prevenível e empurra as respostas sempre para depois da crise.
2. Violência escolar não é só briga: o que permanece invisível
A legislação brasileira já avançou na definição de violência escolar. A Lei nº 13.185/2015 institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying) em todo o território nacional e define bullying como atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetitivos, praticados em situação de desequilíbrio de poder, com o objetivo de humilhar, intimidar ou agredir.
Além disso, a Lei nº 14.811/2024 incluiu medidas de proteção contra a violência em estabelecimentos educacionais, criminalizou o bullying e o cyberbullying e reforçou o dever de prevenção por parte das instituições.
Mas, no cotidiano escolar, ainda prevalece uma visão muito restrita de violência:
- Muitos gestores e docentes só reconhecem “violência” quando há agressão física visível ou dano ao patrimônio.
- Comentários racistas, homofóbicos, misóginos, capacitistas, humilhações públicas, isolamento forçado, exclusão de grupos, difamação em redes, vazamento de fotos íntimas… frequentemente são tratados como “brincadeira”, “coisa de adolescente”, “conflito normal de convivência”.
O problema é que a pesquisa sobre clima escolar e bullying mostra que essas violências simbólicas e psicológicas têm impacto tão devastador quanto a agressão física: aumentam o risco de evasão, ansiedade, depressão, automutilação e ideação suicida, além de deteriorar o senso de pertencimento escolar.
Ou seja: antes de qualquer caso extremo, normalmente há um histórico de sinais silenciosos que não foram acolhidos, registrados nem tratados com a devida gravidade.
3. O foco no “caso extremo” atrapalha a prevenção
Relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, baseado no Censo Escolar e em pesquisas de percepção, revelou que ao menos 1,7% das escolas brasileiras relataram episódios de tiroteio ou “bala perdida”, 2,3% relataram assédio sexual e 0,9% tiveram o calendário letivo interrompido por situações de violência em 2021.
Casos de ataques extremistas a escolas também cresceram: levantamento da Unicamp aponta que, entre fevereiro de 2022 e outubro de 2023, ocorreram 21 ataques desse tipo, contra 15 registrados nos 20 anos anteriores.
Diante dessa realidade, é compreensível que a atenção da mídia, das famílias e do poder público se volte para a violência extrema. Porém, quando a escola organiza suas ações apenas em função do “pior cenário”, corre alguns riscos:
- Ignora o caldo de micro violências diárias que alimentam a sensação de medo, desamparo e injustiça.
- Investe apenas em medidas de segurança física (câmeras, catracas, revistas) sem cuidar da segurança relacional e emocional.
- Responde tardiamente, só depois que “estoura”.
Prevenção eficaz não é instalar detector de metal depois de uma tragédia. É construir, no dia a dia, um clima de confiança, pertencimento e justiça, no qual conflitos são identificados e mediados antes de escalar.
4. O professor como alvo e não apenas como “responsável”
Outro ponto que a escola ainda não compreendeu plenamente: os educadores não são apenas agentes de proteção; eles também são vítimas de violência.
Um estudo da OCDE mostrou que o Brasil lidera o ranking de violência contra professores: 12,5% dos docentes relataram sofrer agressões verbais ou físicas de alunos ao menos uma vez por semana (dados da pesquisa TALIS).
Isso impacta diretamente:
- a saúde mental dos profissionais (ansiedade, adoecimento, afastamentos);
- a permanência na carreira (desmotivação, pedidos de exoneração);
- e a capacidade da escola de manter práticas pedagógicas consistentes.
Quando a escola ignora esse dado, tende a responsabilizar individualmente o professor (“não sabe lidar com turma”, “não tem pulso”) em vez de olhar para:
- número excessivo de alunos por sala;
- ausência de equipe multiprofissional (psicólogo, assistente social, mediador de conflitos);
- falta de protocolos claros de apoio ao docente em situação de ameaça ou agressão;
- cultura institucional que normaliza xingamentos, intimidação e desrespeito.
Prevenção da violência escolar passa, necessariamente, por proteger quem ensina.
5. Sinais silenciosos que a escola costuma ignorar
Os chamados “sinais silenciosos” raramente aparecem em formulários oficiais, mas estão presentes nas entrelinhas da rotina escolar. Alguns exemplos que educadores e gestores podem observar com mais atenção:
- Mudanças bruscas de comportamento: aluno que era participativo e passa a se isolar, ou o contrário torna-se agressivo, irônico, hostil.
- Queda repentina no rendimento e na frequência: não é “preguiça” automática; pode ser reflexo de violência em casa, na comunidade ou na própria escola.
- Queixas somáticas recorrentes: dores de cabeça, de estômago, mal-estar antes de ir à escola podem estar ligados a ansiedade e medo.
- Grupos rígidos de exclusão: estudantes sistematicamente deixados de fora de trabalhos em grupo, rodas de conversa, espaços de convivência.
- “Brincadeiras” que humilham: piadas sobre aparência, cor da pele, religião, orientação sexual, condição socioeconômica, especialmente quando repetidas e apoiadas por risos da turma.
- Violência nos “bastidores digitais”: prints, áudios, memes e montagens circulando em grupos de WhatsApp, Instagram, TikTok, muitas vezes sem chegar aos adultos.
- Autodepreciação constante: estudante que se define repetidamente como “inútil”, “burro”, “ninguém liga pra mim”.
Nada disso, isoladamente, é “prova” de violência. Mas todos esses sinais são convites à escuta qualificada. Quando a escola não tem tempo, estrutura ou cultura para essa escuta, a consequência é simples: respostas tardias.
6. Por que nossas respostas ainda chegam tarde?
Alguns fatores ajudam a entender por que a escola pública, mesmo sabendo da gravidade do problema, ainda reage com atraso:
- Falta de dados sistematizados dentro da própria escola
- Muitas instituições não registram formalmente episódios de violência “menor”. Sem registro, não há histórico, nem análise de padrões, nem plano de ação.
- A escola sabe que “a turma é difícil”, mas não consegue mostrar que tipo de violência se repete, com quem e em que espaços.
- Medo de “queimar o nome da escola”
- Gestores têm receio de que registros e denúncias se transformem em manchete negativa ou investigação externa.
- Como consequência, problemas são abafados, resolvidos informalmente ou empurrados para a família, sem documentação.
- Protocolos confusos ou inexistentes
- Professores frequentemente não sabem a quem recorrer, como registrar ou em que momento acionar a rede de proteção (Conselho Tutelar, CRAS, Ministério Público etc.).
- Isso gera sensação de impotência e leva ao famoso “não é comigo”.
- Formação insuficiente sobre violência e direitos
- Não basta falar de “cultura de paz” de forma genérica. É preciso formação continuada sobre tipos de violência, marco legal, fluxo de encaminhamento, escuta de crianças e adolescentes e mediação de conflitos.
- Sobrecarga de trabalho e ausência de equipe multiprofissional
- Em muitas redes, o professor acumula papéis de mediador, psicólogo, assistente social e orientador – sem tempo, apoio ou formação para isso.
- Sem equipe, a escola vira um “pronto-socorro”, agindo apenas quando o problema já explodiu.
7. O que a escola precisa aprender (e fazer) a partir de agora
Se a violência é estrutural, a resposta também precisa ser. Para educadores e gestores da escola pública, isso significa alguns deslocamentos importantes:
7.1. Reconhecer a violência como questão pedagógica, e não só de segurança
A violência não é apenas tema de portaria, ronda escolar ou câmera de vigilância. Ela impacta diretamente:
- aprendizagem;
- permanência;
- saúde mental;
- projeto de vida dos estudantes.
Portanto, deve aparecer no Projeto Político-Pedagógico (PPP), nas formações de professores, nas avaliações internas e na relação com as famílias.
7.2. Mapear o clima escolar com seriedade
Ferramentas simples podem ajudar:
- questionários anônimos sobre bullying, discriminação e pertencimento;
- rodas de conversa com estudantes, famílias e funcionários;
- análise de registros internos de ocorrência.
Os dados nacionais e internacionais (OCDE, MEC, Fórum de Segurança, MDHC) podem ser usados como referência para comparar a realidade local e construir metas.
7.3. Criar protocolos claros e conhecidos por todos
Um protocolo não é um papel na gaveta. É um fluxo vivo, que precisa ser:
- conhecido por professores, funcionários, estudantes e famílias;
- simples o suficiente para ser usado na prática;
- alinhado às leis vigentes (ECA, Lei 13.185/2015, Lei 14.811/2024).
Ele deve responder, de forma objetiva:
- Como registrar um episódio de violência?
- Em que casos a escola resolve internamente?
- Em que momento acionar a rede de proteção?
- Quem acompanha a vítima? E quem acompanha o agressor?
Lembrando: agressor também é sujeito de direitos e, muitas vezes, reproduz violências que sofre em outros espaços.
7.4. Fortalecer a escuta qualificada e as práticas de cuidado
Algumas estratégias concretas:
- reservar tempos e espaços no horário de trabalho docente para acompanhamento de estudantes;
- instituir tutoria, monitoria entre pares ou projetos de “aluno referência” para acolher colegas mais vulneráveis;
- estabelecer parceria com serviços de saúde e assistência social do território;
- investir em metodologias de mediação de conflitos, círculos restaurativos e educação socioemocional – não como “projetinho”, mas como eixo permanente.
7.5. Enfrentar a violência também no ambiente digital
Com a expansão do uso de redes sociais e aplicativos de mensagem, o cyberbullying tornou-se uma extensão da violência escolar. A Lei 14.811/2024 reconhece essa dimensão e inclui o cyberbullying no rol de condutas puníveis.
A escola precisa:
- discutir com os estudantes o uso responsável das redes;
- trabalhar educação midiática e digital crítica;
- incluir situações de exposição, vazamento de imagens, linchamento virtual e discursos de ódio no protocolo de violência escolar;
- alinhar com as famílias os limites e responsabilidades no ambiente on-line.
8. Entre o silêncio e a resposta: o tempo da escola precisa mudar
A pergunta central deste texto – “O que a escola ainda não entendeu sobre violência?” – pode ser resumida assim:
A escola ainda não percebeu que o tempo da violência é diferente do tempo da burocracia.
Enquanto formulários, despachos e instruções normativas demoram dias ou semanas, a violência acontece em minutos, e seus efeitos se prolongam por anos.
O desafio para educadores e gestores da escola pública é encurtar a distância entre o primeiro sinal silencioso e a primeira resposta concreta. Isso exige:
- olhar atento;
- escuta;
- coragem de registrar;
- compromisso institucional com a proteção;
- articulação real com a rede de políticas públicas.
Violência escolar não é “parte do pacote” de trabalhar em escola pública. É violação de direitos e precisa ser tratada como tal. Quanto antes a escola reconhecer isso, e reorganizar seu cotidiano a partir dessa consciência, mais espaço haverá para que a sala de aula volte a ser o que deve ser: um ambiente de aprendizagem, pertencimento e futuro possível.