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Terça-feira 05 de Junho de 2018

OS IMPACTOS DA BNCC

A BNCC funcionará como uma espinha dorsal do sistema educacional brasileiro, promovendo a articulação dos seus diferentes segmentos.

Currículos: elaboração e revisão
A BNCC substitui integralmente os antigos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), que eram utilizados como referência para a elaboração dos currículos em todo o Brasil. Com a vantagem de que a Base, prevista em lei, é fixada por norma nacional. Isso significa que nos próximos vinte anos a BNCC provavelmente continuará sendo a principal referência organizativa da Educação Básica brasileira em todas as suas dimensões. Já esclarecemos que a BNCC não é currículo. Ela é um conjunto de referenciais organizados para que professores, escolas e redes de escola elaborem, revejam, crítica e criativamente, as suas propostas curriculares, reavaliando estratégias ou confirmando suas opções.
 
Portanto, o trabalho de revisão ou elaboração de propostas curriculares deve começar imediatamente. E deve ser concluído preferencialmente até o final de 2018, apesar de a Resolução CNE/CP 2/2017 estabelecer prazo máximo até final de 2019. Essa é uma tarefa a ser realizada por toda a equipe escolar de forma colaborativa e participativa. Escolas e redes de ensino devem planejar essas atividades e assegurar os meios para que sejam realizadas com êxito.
 
Resolução CNE/CP 2/2017
Art. 15. As instituições ou redes de ensino podem, de imediato, alinhar seus currículos e propostas pedagógicas à BNCC.
Parágrafo único. A adequação dos currículos à BNCC deve ser efetivada preferencialmente até 2019 e, no máximo, até início do ano letivo de 2020.
 
Livros didáticos
A partir de agora, com a BNCC e os currículos decorrentes dela, as professoras e os professores, responsáveis pela escolha dos livros a serem adotados em suas escolas, terão referenciais mais claros, possibilitando que essas escolhas sejam mais objetivas e menos desniveladas. Nesse momento, editoras como a FTD Educação – com seus autores de livros e demais materiais e serviços – já estão atualizando seus materiais e elaborando novos produtos. Tudo isso tendo por base a BNCC.
 
Resolução CNE/CP 2/2017
Art. 19. Os programas e projetos pertinentes ao MEC devem ser alinhados à BNCC, em até 1 (um) ano após sua publicação.
Art. 20. O PNLD – Programa Nacional do Livro Didático – deve atender o instituído pela BNCC, respeitando a diversidade de currículos, construídos pelas diversas instituições ou redes de ensino, sem uniformidade de concepções pedagógicas.
 
Formação de professores
Outra dimensão importante se refere aos programas de formação inicial de professores.
É consenso que entre as principais causas da baixa qualidade da educação do país está o deficiente sistema de formação profissional para o setor. 
Os diagnósticos convergem ao apontar que a maior parte dos cursos de licenciatura não forma profissionais suficientemente preparados para enfrentar os desafios de o que ensinar e como ensinar. A BNCC deverá levar a uma revisão das diretrizes curriculares das licenciaturas, bem como dos sistemas de avaliação e regulação desses cursos, com vantagens para o sistema educacional.
Ainda no que diz respeito à formação profissional, muitos professores já formados e em atividade são portadores de severas lacunas. Em resposta a esse quadro, todos os anos as secretarias de educação, sindicatos, faculdades e ONGs organizam uma plêiade de programas de formação continuada e atualização, mobilizando milhões de educadores e bilhões em recursos financeiros. Contudo, no mais das vezes, são ações dispersas e fragmentadas, com baixa repercussão na qualidade de ensino e da aprendizagem. Esses programas podem ser amplamente beneficiados pela existência da BNCC, implicando atividades formativas mais focadas, objetivas e coerentes com relação aos desafios de implementação do currículo e do projeto educacional da escola.
 
Resolução CNE/CP 2/2017
Art. 17. Na perspectiva de valorização do professor e da sua formação inicial e continuada, as normas, os currículos dos cursos e programas a eles destinados devem adequar-se à BNCC, nos termos do §8o do Art. 61 da LDB, devendo ser implementados no prazo de dois anos, contados da publicação da BNCC, de acordo com Art. 11 da Lei no
13.415/2017.
§ 1o A adequação dos cursos e programas destinados à formação continuada de professores pode ter início a partir da publicação da BNCC.
§ 2o Para a adequação da ação docente à BNCC, o MEC deve proporcionar ferramentas tecnológicas que propiciem a formação pertinente, no prazo de até 1 (um) ano, a ser desenvolvida em colaboração com os sistemas de ensino.
Art. 18. O ciclo de avaliação do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), seguinte à publicação da BNCC, deve observar as determinações aqui expostas em sua matriz de referência.
 
Seleção e admissão de professores
No Brasil os concursos e outros procedimentos de seleção e admissão de profissionais para o magistério adotam critérios bastante heterogêneos. É frequente a aplicação de provas e exames que nada medem em termos de conhecimentos e capacidades dos profissionais a serem incorporados aos quadros do serviço público educacional. A BNCC pode contribuir para uma melhoria dos padrões avaliativos e proporcionar avanços na qualidade dos novos profissionais que exercerão o magistério.
 
Avaliações
O conhecimento sobre o desempenho da escola, órgãos do Estado e da família em face do direito do aluno ao aprendizado é simplesmente indispensável. Assim como é essencial que ele, estudante, possa analisar os resultados do seu próprio esforço em aprender e se desenvolver. ANA, Prova Brasil e os diferentes sistemas de avaliação realizados pelos estados e pelos municípios terão a BNCC, a partir de agora, como um parâmetro para que eles sejam concebidos, efetuados e interpretados. E deles derivarão todas as consequências para que se monitore a realização da aprendizagem como direito e do ensino como dever.
 
Resolução CNE/CP 2/2017
Art. 16. Em relação à Educação Básica, as matrizes de referência das avaliações e dos exames, em larga escala, devem ser alinhadas à BNCC, no prazo de 1 (um) ano a partir da sua publicação.
 
Outras orientações estabelecidas na Resolução CNE/CP 2/2017
Com base no Parecer CNE/CP 15/2017, a Resolução CNE/CP 2/2017, de 22 de dezembro de 2017, estabelece algumas orientações ainda não citadas que vale a pena destacar:
 
Prazo de revisão
Art. 21. A BNCC deverá ser revista após 5 (cinco) anos do prazo de efetivação indicado no art. 15.
Orientação sexual, identidade de gênero e ensino religioso
Art. 22. O CNE elaborará normas específicas sobre computação, orientação sexual e identidade de gênero.
Art. 23. O CNE, mediante proposta de comissão específica, deliberará se o ensino
religioso terá tratamento como área do conhecimento ou como componente curricular da área de Ciências Humanas, no Ensino Fundamental.
 
Resolução de questões
Art. 24. Caberá ao CNE, no âmbito de suas competências, resolver as questões suscitadas pela presente norma.

Terça-feira 05 de Junho de 2018

O QUE É A BNCC?

Uma base definidora dos Direitos de Aprendizagem

A Base Nacional Comum Curricular é um documento normativo que define os direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento para todas as crianças, jovens e adultos em escolas de Educação Básica públicas e privadas de todo o Brasil. Ao definir direitos, define também os deveres: deveres do Estado, dos governos, das famílias, das escolas, dos profissionais da educação e até mesmo os deveres dos estudantes, já que estudar e aprender é também um desafio para eles. Portanto, a BNCC é uma contribuição para a equidade, para a igualdade de oportunidades educacionais.
 
A Resolução CNE/CP 2/2017 é clara: direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento podem ser expressos em competências e habilidades. A BNCC elenca dez competências gerais que devem guiar a ação educativa em todas as etapas e modalidades da educação básica.

[...] competência é definida como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho. (BNCC, p. 8)

Terça-feira 05 de Junho de 2018

HISTÓRICO: POR QUE ELABORAR UMA BNCC?

Apesar dos imensos esforços e da enorme dedicação dos educadores de nosso país, a história da educação brasileira poderia ser contada como a história das suas incompletudes e carências. Mas também poderia ser contada pelos avanços realizados por aqueles que acreditam que só com educação seremos uma sociedade democrática, desenvolvida e socialmente justa.

Não podemos achar natural que, ainda nos dias de hoje, mais da metade das crianças brasileiras concluam o ciclo de alfabetização sem que estejam alfabetizadas depois de passarem mais de três anos na escola (BRASIL, Inep, 2017). Também não é aceitável que apenas 7% dos jovens brasileiros terminem o Ensino Médio sabendo Matemática e só 26% deles tenham conhecimentos necessários de Língua Portuguesa (BRASIL, Inep, 2018). Não por acaso, esses problemas são crônicos, mas podem ser enfrentados e resolvidos. Depende de vontade e determinação. Em que pese o trabalho de resistência de professores, autores de livros e ativistas na luta por direitos sociais, e considerando os esforços que vêm sendo realizados pelas escolas e outras instituições educacionais, o fato é que a educação de qualidade ainda é um direito para poucos em nosso país. Entretanto, em diversos momentos em que a nação tentou se encontrar consigo mesma e com o seu futuro, a causa da Educação sempre ocupou posição de destaque. Assim foi na Constituição de 1988, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a LDB, de 1996, e na Lei do Plano Nacional de Educação, de 2014.

Em todos esses casos, indicou-se uma Base Nacional Comum Curricular como fator importante para a equidade e unidade nacional. A BNCC recém-aprovada pelo Conselho Nacional de Educação é obra de milhares de mãos em diferentes tempos da história recente.
 

Terça-feira 05 de Junho de 2018

A ARQUITETURA DA BNCC

A principal novidade trazida pela BNCC da Educação Infantil e do Ensino Fundamental pode ser percebida na estrutura de apresentação dessas duas etapas. Em relação às atuais Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), que, aliás, continuam em pleno vigor, a BNCC é muito mais detalhada e mais articulada.


Com o intuito de tornar mais clara a navegação pelo documento, nas páginas a seguir apresentamos esquemas com a estrutura geral da BNCC, a forma como as aprendizagens se organizam em cada uma das etapas da Educação Básica, além da composição dos códigos alfanuméricos que identificam as aprendizagens. Consideramos as informações pertinentes à Educação Infantil e ao Ensino Fundamental, já que aquelas que se referem ao Ensino Médio aguardam a aprovação e a homologação da BNCC.
 
Educação Infantil
Para a Educação Infantil, a BNCC se vale das disposições contidas nas atuais Diretrizes, mas avança no sentido de relacionar os seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento com os cinco campos de experiência que devem ser sempre trabalhados simultaneamente nas diferentes fases do desenvolvimento da criança.
Dessa forma, a BNCC da Educação Infantil contribui para que essa etapa se consolide como etapa primeira da Educação Básica e supere o estigma de uma educação menor, de baixa complexidade e que dispensa planejamento, intencionalidade, qualificação de seus recursos, apoio e respeito. Como sabemos, valorizar e respeitar a Educação Infantil, suas educadoras e educadores, suas escolas, suas crianças e suas famílias significa valorizar toda a educação.

O quadro que detalha cada um dos cinco campos de experiência é dividido em três colunas, uma para cada grupo de faixa etária, onde se encontram os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento. Veja o exemplo a seguir:

Os códigos alfanuméricos que acompanham cada objetivo de aprendizagem e desenvolvimento têm uma lógica na sua composição que facilita o reconhecimento de cada um deles. Veja como eles são compostos:


Pelo critério adotado, o código EI02EO01 refere-se ao primeiro objetivo de aprendizagem e desenvolvimento do campo de experiências “O eu, o outro e o nós” para crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses). A BNCC ressalta que:
 
[...] a numeração sequencial dos códigos alfanuméricos não sugere ordem ou hierarquia entre os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento (BNCC, p. 26).
 
Ensino Fundamental
A proposta para o Ensino Fundamental trazida pela BNCC é mais complexa, com alguma diversidade na organização de suas partes. De todo modo, ela se baseia nas áreas clássicas do currículo (Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas) para, do primeiro ao nono ano, ora ano a ano, ora em ciclos, articular habilidades em campos do saber, eixos temáticos e objetos do conhecimento. Lembrando, mais uma vez, que a organização proposta pela BNCC é apenas uma forma possível, entre outras, e que não deve ser tomada como modelo obrigatório na atividade de elaboração curricular propriamente dita.


As unidades temáticas agrupam um conjunto de objetos de conhecimentos que, por sua vez, se relacionam a uma ou mais habilidades. Veja o exemplo a seguir, de Ciências.


As habilidades, que são as aprendizagens essenciais a serem garantidas a todos os alunos, aparecem descritas em uma estrutura, conforme o exemplo a seguir, de História (EF06HI14).



Segundo a BNCC, [...] as habilidades não descrevem ações ou condutas esperadas do professor, nem induzem à opção por abordagens ou metodologias. Essas escolhas estão no âmbito dos currículos e dos projetos pedagógicos, que, como já mencionado, devem ser adequados à realidade de cada sistema ou rede de ensino e a cada instituição escolar, considerando o contexto e as características dos seus alunos (BNCC, p. 30).
 
Os códigos alfanuméricos que acompanham cada habilidade têm uma lógica na sua composição que facilita o reconhecimento de cada um deles. Veja como eles são compostos:


Portanto, pelo critério adotado, o código EF67LP02 refere-se à segunda habilidade proposta em Língua Portuguesa no bloco relativo ao 6o e 7o anos. Outro exemplo: o código EF07LI09 diz respeito à nona habilidade do 7o ano de Língua Inglesa.
 
A BNCC também ressalta que:
[...] o uso de numeração sequencial para identificar as habilidades de cada ano ou bloco de anos não representa uma ordem ou hierarquia esperada das aprendizagens.
(BNCC, p. 31).

Terça-feira 05 de Junho de 2018

COMO USAR A BNCC E POR QUE LER A BNCC

Além do Parecer CNE/CP 15/2017 e da Resolução CNE/CP 2/2017, o documento técnico da BNCC tem 468 páginas. Nele, mais que os direitos, estão enunciados conceitos, concepções, modos de pensar o desenvolvimento da infância e da adolescência, campos de experiência, competências, objetivos e objetos de conhecimento, habilidades, ideias de progressão, enfim, tudo o que se considera essencial.
É uma proposta do que se julga necessário para que os alunos se desenvolvam plenamente, se capacitem para o exercício da cidadania e comecem a se preparar para sua futura iniciação no mundo do trabalho. No todo ou visitando as suas partes, sim, vale a pena conhecer os documentos da BNCC. De agora em diante, conhecê-los faz parte de nossa formação profissional como educadores.

Um espelho facilitador
Um documento com 468 páginas pode parecer assustador à primeira vista. Contudo, ao iniciarem a leitura, os educadores vão notar que muito do que já pensam e fazem está ali. Poderão se enxergar nas propostas apresentadas. Isso porque a BNCC é o resultado sistematizado da experiência educacional brasileira, de boas práticas desenvolvidas por professoras e professores em sala de aula, de conhecimentos produzidos por pesquisadores nas universidades e, ainda, considera o que vem sendo feito com bons resultados em outros lugares do mundo. Entretanto, a BNCC não é um documento perfeito e acabado. Será na sua implementação concreta por professores, alunos e escolas, de forma democrática e participativa, que a Base adquirirá sua identidade na história da educação brasileira.
 
Como um GPS
Na verdade, a BNCC é uma espécie de carta de navegação, um tipo de GPS destinado à elaboração curricular. Nesse mapa os educadores podem ver o que já fazem, afirmando suas convicções, e o que poderiam fazer de forma mais articulada e completa. Podem ver o que outros colegas estarão trabalhando em etapas anteriores com seus futuros alunos. 
Podem enxergar o que outros provavelmente estarão fazendo em outras disciplinas e componentes. E poderão visualizar de que forma os conhecimentos ensinados hoje serão essenciais para aquilo que será realizado pelos estudantes em anos futuros. Portanto, a BNCC pode facilitar uma mirada curricular de norte a sul e de leste a oeste.
 
O que a BNCC não é
A BNCC não é currículo. Não é currículo único, tampouco currículo mínimo. Ela é um conjunto de referenciais para a elaboração curricular. No exercício de sua autonomia, escolas, redes de escolas e seus profissionais devem levar em conta a Base para a construção, revisão, atualização e consolidação das suas opções curriculares. Incluindo aí todas as opções metodológicas e organizacionais, a contextualização, a escolha de livros, materiais e recursos didáticos e as diferentes formas de estruturação do trabalho escolar.
 
Autonomia
Em todas as partes do documento da BNCC está explícita a seguinte advertência:
 
[...] os critérios de organização das habilidades na BNCC (com a explicitação dos objetos de conhecimento aos quais se relacionam e do agrupamento desses objetos em unidades temáticas) expressam um arranjo possível (dentre outros). Portanto, os agrupamentos propostos não devem ser tomados como modelo obrigatório para o desenho dos currículos. (BNCC, p. 328)

Assim, fica claro que a BNCC sublinha o absoluto respeito à autonomia de decisão das escolas e seus professores. A eles cabe o primado das decisões sobre o currículo e sua implementação. Porém, autonomia nunca é coisa dada. Como uma síntese de liberdade com responsabilidade, autonomia é conquista que se exerce. Dá trabalho! Mas é um trabalho com potencial de empoderar a escola, os professores e toda a equipe escolar. Pois sabemos que aprendemos quando criamos. E quando aprendemos inventando e reinventando nossos caminhos, nos fazemos fortes. 

Terça-feira 05 de Junho de 2018

A BNCC E A EDUCAÇÃO INFANTIL, POR EMILIA CIPRIANO

Um primeiro ponto a ser destacado neste texto é reconhecer que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) materializa algumas conquistas legais da Educação Infantil que embasam a concepção de infância: os seis direitos de aprendizagem e os cinco campos de experiências fundamentais para o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças.
 
Um segundo ponto é o diálogo que se estabelece entre a BNCC e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. É importante reforçar que a Base não é um currículo, portanto, o que cabe nesse documento é contemplar os princípios defendidos pelas Diretrizes Nacionais, bem como os seus eixos estruturantes.
 
Nas diferentes versões da BNCC lançadas pelo Ministério da Educação ocorreram alterações relevantes: na primeira versão não havia a divisão por faixas etárias; na segunda as experiências com cultura oral e escrita foram acrescidas; na terceira houve uma preocupação com os direitos da aprendizagem e com as competências. Além de exercitar a nossa capacidade de reflexão, a Base é uma provocação para a retomada da Educação Infantil e de sua própria identidade, para o aprofundamento de conceitos e concepções que se colocam no cenário atual como um espaço formativo dos professores.
 
Da forma como é proposta, a Base mantém a liberdade do trabalho docente. Ainda cabe ao
professor tomar decisões. Ele pode, por exemplo, fazer projetos que tenham ligação com a criança concreta, no contexto em que ela vive, considerando as experiências acumuladas ao longo de sua trajetória. É fundamental que os professores possam refletir sobre suas práticas, e é importante ressaltar que a escola continua com autonomia em relação a isso.
 
As discussões apontadas na Base sobre os campos de experiência na Educação Infantil fundamentam-se nos seguintes direitos concretos das crianças, que são chamados de direitos de aprendizagem e desenvolvimento: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. A versão homologada do documento estabelece ainda cinco campos de experiências coerentes com esses direitos de aprendizagem e desenvolvimento: “o eu, o outro e o nós”; “corpo, gestos e movimentos”; “traços, sons, cores e formas”; “escuta, fala, pensamento e imaginação”; “espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”.
 
O grande desafio é fazer com que esses direitos se materializem no cotidiano da Educação Infantil e atendam aos objetivos de aprendizagem e desenvolvimento de acordo com a faixa etária proposta no documento, sem fragmentar o processo, buscando uma continuidade. O que se espera com todas essas mudanças e reflexões sobre o documento é garantir que as práticas pedagógicas sejam permeadas por intencionalidade pedagógica, mesmo que o contexto seja de brincadeiras e interações. Uma educação infantil de qualidade coloca a criança no centro, como protagonista de um processo de ensino e aprendizagem planejado para estimulá-la a se desenvolver integralmente. Pressupõe-se que a criança é cidadã desde o momento em que nasce, e entendem-se as formas de manifestação desse bebê com aspectos próprios e intimamente ligados a uma relação do cuidado. No entanto, o cuidado deve se dar no sentido de entendimento desse tempo que a criança está vivendo, dessa apropriação dela com o espaço ao redor. A discussão que se fez sobre o Ensino Fundamental de nove anos é exemplar por ter colocado em questão a necessária articulação entre toda uma concepção pedagógica e o espaço das vivências da criança.
 
O diálogo entre os educadores da Educação Infantil e os do Ensino Fundamental (anos iniciais) deve ser intenso, e a Base ressalta isso ao discorrer sobre como deve ser o momento de transição da criança entre esses dois momentos. O documento reforça a importância da documentação pedagógica, ou seja, dos registros criados ao longo da Educação Infantil que contam a história das aprendizagens da criança. Esse material é muito importante para auxiliar os professores do Ensino Fundamental. Além disso, a BNCC apresenta uma síntese de aprendizagem que servirá como indicador do que se construiu nos anos iniciais da criança na vida escolar.
 
A pergunta que se coloca é: Como estou trabalhando o universo imaginário com essa criança no Ensino Fundamental? Ela deixou de criar situações imaginárias e de viver isso simplesmente porque mudou de escola e foi para outro espaço? Deixou de trabalhar as brincadeiras sem regras? A brincadeira, como eixo estruturante, perpassa as dimensões afetiva, motora, cognitiva e, principalmente, das relações e da totalidade.
O brincar reúne esse conjunto de elementos e, por isso, espera-se que a unidade fundamental da brincadeira seja preservada no Ensino Fundamental. É comum que, nessa etapa da educação, as crianças deixem de ser percebidas em uma trajetória; costuma-se operar um rompimento e uma desvalorização das vivências anteriores. Os conteúdos são colocados em um processo de escolarização, e não como um processo de aprendizagem para a vida.
 
Pensemos: Onde é que está a terra? Onde é que está a água? Onde está o contato com as plantas? Essas questões me chamaram muito a atenção quando, ao participar de um Seminário de Educação Integral, um menino de 12 anos, ao ser questionado sobre o que é Educação Integral, deu o seguinte depoimento: “Na minha escola é o momento da horta, porque é o momento que eu me sinto mexendo com a terra, eu sinto as coisas, eu vou, eu planto, eu molho, eu colho e depois a gente faz uma salada”.
 
Olha que síntese feita de uma forma tão profunda por um menino de doze anos. Quando a gente se propõe todo esse movimento de relação com a natureza, de relação com o ambiente, de se apropriar da vida, é no sentido de um cuidado imenso para que as crianças não sejam confinadas, pois, como o diz o poeta Carlos Drummond de Andrade:
 
[...] se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem.
 
(ANDRADE, 1977)
 
O avanço para um trabalho de qualidade na Educação Infantil está em reconhecer que toda prática pedagógica deve ter um objetivo, e nesse sentido o documento da BNCC traz uma contribuição significativa, pois reforça a responsabilidade em ser educador da infância. É importante estar atento para escutar as vozes das crianças e das famílias, a fim de construir uma rede de formação humana e comprometida com os princípios éticos do gênero humano.

Terça-feira 05 de Junho de 2018

Entenda a construção da BNCC, por Cesar Callegari

Pela primeira vez na história, o Brasil tem uma Base Nacional Comum Curricular, a BNCC. Por enquanto, apenas para a Educação Infantil e para o Ensino Fundamental. A Base para o Ensino Médio estará em elaboração e análise durante o ano de 2018.
 
A BNCC é fruto de uma determinação legal e tem por objetivo contribuir com o trabalho das escolas e seus professores. Ela é o resultado de um longo processo de discussões envolvendo amplos setores da sociedade que lutam para que todos tenham acesso à Educação de qualidade, independentemente do local e da condição social em que vivam.
 
A partir de agora, professores, coordenadores pedagógicos, diretores, supervisores, equipes técnicas e administrativas das Secretarias de Educação têm a oportunidade e a responsabilidade de conhecer a BNCC, fazer uma análise crítica e criativa de seu conteúdo e tomar as medidas que julgarem adequadas em relação a seus currículos, projetos pedagógicos, planos de aula e organização do trabalho escolar.
 
Todo profissional da Educação bem formado e atualizado deve dominar a Base. Além de ser um documento normativo nacional, define as aprendizagens essenciais que os alunos têm o direito de adquirir durante a Educação Básica. Por isso, é necessário mais que um esforço individual: conhecer e dominar a BNCC é uma tarefa coletiva que exige organização, planejamento, apoio e capacidade de trabalhar em equipe de forma colaborativa.
 
Diante disso, a FTD Educação se dispõe a ajudar nesse esforço e colaborar com os educadores brasileiros para que, juntos, possamos realizar os avanços necessários em benefício das crianças e dos jovens de todo o Brasil.

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